

Queira Deus que meu texto abaixo seja um completo equívoco.
Como Major Capelão do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro, me encontro bastante preocupado com o destino dos policiais e bombeiros grevistas. A Capelania é um setor da Diretoria de Assistência Social. Nosso trabalho sempre está direta e intimamente ligado às necessidades sociais dos militares. Parece que o poder público caminhará na direção da punição exemplar dos militares grevistas. A própria presidente Dilma já sinalizou contra a anistia dos grevistas. Com a maior celeridade dos processos de julgamento dos policiais e bombeiros estabelecida pelo governador Sérgio Cabral no Rio de Janeiro, o que certamente será implantado também na Bahia, nós, sociedade civil, nós militares e o poder público, teremos uma séria questão social a ser administrada. Com a aplicação sumária da legislação os grevistas serão condenados, cumprirão pena e serão excluídos de suas corporações. Entendo que precisaremos, como sociedade, nos preparar para absorver apropriadamente os condenados.
Os militares estaduais hoje se encontram bastante endividados. A grande maioria está com suas margens de consignação em contra-cheque já completas. Esta grande maioria também possui endividamento no cartão de crédito e no cheque especial. Com a perda de poder aquisitivo nos últimos anos, os profissionais estaduais de segurança procuraram manter o padrão de vida familiar com o financiamento a juros. Alguns, lamentavelmente estão escravizados a agiotas e sofrendo todo tipo de ameaças. Com a demissão e com a prisão, as famílias ficarão desamparadas financeiramente e sem a assistência médica oferecida pela PM e pelo Corpo de Bombeiros.
Os ex-policiais e ex-bombeiros, depois do cumprimento da pena, ficarão de algum modo proscritos na sociedade. Grande número de policiais e de bombeiros, hoje, são moradores de favela. Exceto as favelas pacificadas em torno do cinturão de segurança do Maracanã, a presença da criminalidade ainda é ostensiva. Desarmados, sem o amparo de suas corporações, eles terão necessariamente que largar suas moradias para trás. O êxodo dos militares e de suas famílias representará a necessária dependência da caridade de amigos e de parentes. A busca por uma nova atividade profissional será muito precária. Serão cidadãos entendidos pela sociedade como de segunda categoria. Terão ficha criminal e a pecha de militares expulsos. Aos olhos da sociedade serão tidos como traidores da sociedade, que largaram seus postos, deixaram cidadãos morrerem por causa de suas reivindicações salariais. Serão, ao mesmo tempo, rejeitados e temidos. Necessariamente cairão na informalidade ou, o que é pior, na criminalidade.
A maior parte dos policiais e bombeiros são pardos ou negros. Devido à dívida social e histórica para com os afro-descendentes no Brasil, o trabalho braçal e de grande risco foi sempre destinado a eles pela divisão social do trabalho. O Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro é uma instituição formada majoritariamente de homens e mulheres negros ou mulatos. Aliás, o Corpo de Bombeiros do Rio, o primeiro do Brasil, foi organizado em 1856 com escravos. O emprego público, estável, ainda que com remuneração modesta, sempre representou para este grupo racial a possibilidade de ascensão social. A tendência será que os afro-descendentes condenados se transformem, em pouco tempo, em párias sociais.
Como sociedade, precisamos pensar em um projeto de reintegração e reinserção social dos futuros condenados. A abordagem terá de ser muli-disciplinar. Será necessário o envolvimento de assistentes sociais, psicólogos, sociólogos. Será, contudo, uma corrida contra o tempo. Se o movimento continuar, as duas centenas de presos e indiciados irão passar a um número muito maior. Na melhor das hipóteses, teremos que pensar na reinserção de pelo menos duzentas famílias. Numa análise conservadora, teremos em torno de oitocentas pessoas desamparadas e discriminadas. Uma certa parcela da sociedade achará o desamparo de tais famílias como conseqüência merecida da decisão de greve do provedor do lar. Essas crianças (e bombeiro e policial, geralmente, têm muitos filhos) terão de ser assistidas pelo poder público. Terão de ter assistência psicológica para poderem absorver a diferença de visão que terão, repentinamente, de seus pais. Terá de ser feito um trabalho com as esposas para que os casamentos não se desfaçam. Teremos que pensar na realocação das famílias de uma favela para outra, pelo menos. Não havendo recursos para tirá-las da favela, pelo menos que sejam realocadas em favelas pacificadas. Na altura em que estamos do ano, necessário será que os filhos dos condenados tenham a matrícula garantida nas escolas municipais mais próximas da prefeitura. O governo estadual terá de fazer um acordo com as prefeituras para que a matrícula seja garantida, e isto com absoluta discrição, para que as crianças não sejam discriminadas nas escolas. Também, penso, que haverá a necessidade de um convênio emergencial com setores das prefeituras que possam fornecer cestas básicas. No que concerne à assistência médica, creio que a rede pública será a solução, mesmo limitada, mas será a solução possível.
Acredito, também que haverá a necessidade de oferecer alguma oportunidade de formação profissional. O militar tem uma desvantagem em relação a outras categorias profissionais. Devido ao nível de absorção do seu tipo de atividade, ele acaba resumindo seu universo ao serviço da sociedade, não tendo tempo de diversificar sua formação. A mangueira e a pistola passam a ser seu estilo de vida. Com o tempo de casa dos condenados, será necessário reprofissionalizá-los, de preferência, ainda durante o cumprimento da pena. Nesse período, precisa-se também garantir um auxílio reclusão para as famílias. Com a liberdade, será preciso negociar com a iniciativa privada, como empregá-los, apesar da idade e da falta de experiência na nova atividade profissional. Bom seria que fosse feito algum trabalho psicológico em grupo, com as famílias, para que pudessem trocar experiências que facilitem a elaboração do luto, e sejam criadas perspectiva de futuro pelo cultivo de sonhos. Como capelão, creio que a participação de ministros religiosos, conforme a confissão das famílias, será produtiva e útil.
As famílias, com todas essas iniciativas, precisarão se adaptar a uma sensível queda de prestígio social e material. Estarão, de modo tangível, mais desprotegidas socialmente. No caso, eventual, de ser aprovado no futuro algum projeto de reajuste semelhante ao proposto pela PEC 300, o efeito psicológico será devastador. Haverá uma espécie de síndrome de martírio para o grupo familiar. Eles se sentirão como a parte sacrificada para a conquista de suas ex-corporações. Haverá um sentimento nostálgico de perda que abrirá portas para desentendimentos familiares e até para o uso de drogas psicoativas que poderão gerar dependência. O alcolismo será um sério risco.
Meu clamor é por misericórdia e por consciência social para com os eventuais condenados e suas famílias. Apelo à sociedade como um todo, ao poder público, às organizações não-governamentais e às empresas de comunicação de massa que criem um contexto favorável à reintegração desses grupos familiares.
Major Capelão Cláudio Machado Pombal, pastor evangélico.
Segue o exemplo positivo no CBMERJ
Fé e Razão
Reynoso Silva Cidadão Bombeiro.










